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| A fronteira, outrora, protegia o México, o Canadá e a Europa contra a agressão dos EUA... Isso mudou. |
Genebra, na Suíça, viu-se, em janeiro de 1929, inundada por relatórios sobre a violência gerada por leis que criminalizam condutas sem vítimas, além de relatos fantasiosos sobre a importação e exportação de drogas — devidamente taxadas, licenciadas, autorizadas e legalizadas — provenientes de países cujos políticos manifestavam mais ou menos entusiasmo em enfiar a própria cabeça no laço do proibicionismo. O termo "discrepância" aparece dez vezes logo na primeira página da ata daquela reunião vespertina; após muita discussão acalorada e muita tinta gasta, chegou-se a uma "Santíssima Trindade" de diretrizes:
1. O Secretariado da Liga examinará todas as discrepâncias;
2. Todos os governos envolvidos devem ser repreendidos; e
3. A cada cinco anos, o Comitê deve verificar a precisão de um quadro estatístico internacional...
com um subitem (b) que conclui: "Nos relatórios estatísticos anuais — tanto os provisórios quanto os definitivos —, quaisquer dados dos quais surjam discrepâncias deverão ser assinalados com um asterisco." (*)
Na física, na química, na estatística e até mesmo na usinagem das pistolas de serviço da gendarmerie — utilizadas para cobrar as leis dos fervorosos defensores da repressão —, o termo "tolerância" refere-se à margem permitida para desvios em relação a padrões teóricos ou ideais; ou seja, discrepâncias. Uma consequência lógica de se marcar, com asteriscos, os relatórios sobre contrabando, remessas e apreensões — indicando a existência de discrepâncias — seria o enorme consumo de tinta que o Quarto Comitê da Liga (responsável pelo orçamento e pela contabilidade financeira) teria de justificar, caso essas pequenas tolerâncias exigissem asteriscos proporcionais aos absurdos inseridos nos relatórios nacionais. O dilema foi resolvido com a inclusão de uma subinstrução adicional no item (b), a saber: "Discrepâncias que não ultrapassarem as seguintes quantidades serão desconsideradas:
Ópio bruto 500 quilos
Morfina 100 quilos
Heroína 10 quilos
Cocaína 10 quilos."
Sob as regras do "clube dos cartéis" formuladas na época, meia tonelada de ópio acaba sendo tratada, de uma forma ou de outra, como um mero erro de arredondamento.
Para apaziguar mais um arroubo italiano, o presidente, um sérvio, recorreu ao Pacto da Liga das Nações, sugerindo que aquilo dava respaldo à diatribe de seu distinto colega. O Artigo 23 do Pacto — de autoria norte-americana — espelha parte do Artigo 23 do Tratado de Versalhes, conferindo à Liga a responsabilidade por aquela nobre "proibição" que, deixada sob a gestão de Haia, havia naufragado nas hostilidades balcânicas e mundiais. Ambos os documentos eram frequentemente invocados como base jurídica para o uso irrestrito da força e para a inclusão contínua de novas substâncias na lista de "drogas" a serem restringidas em escala global — e que se danem as consequências econômicas! Desde fevereiro de 1920, o Tratado de Versalhes, em sua totalidade e em todos os seus desdobramentos, também vinha sendo alvo de denúncias por parte de um só partido socialista alemão — uma agremiação tão inexpressiva que podia ser ignorada sem maiores preocupações... por enquanto.
Alguns itens, autorizados para exportação em 1927 pela Sûreté francesa, foram apreendidos na China — país que, segundo documentos da Liga das Nações, não teria implementado o sistema de certificados de importação para entorpecentes. Essa omissão tornava tais remessas para a China legais, sob a ótica dos padrões europeus. Foi então que "King-Ky" — um chinês cujo nome aparece grafado de formas diferentes em diversos documentos da Liga — interveio, negando ter conhecimento dos fatos adicionais. King-Ky alegou que o governo chinês tinha adotado o sistema "em princípio"; se o Ministério do Interior não tomara providências, era porque a China estava "de mãos e pés atados por tratados desiguais", e as autoridades estrangeiras locais não respondiam às suas indagações. Segundo ele, tudo isso criava uma obrigação moral para os estrangeiros: o de alterar os fatos e corrigir o documento francês. Ao ser informado de que a lista fora elaborada pela Liga das Nações, e não pela França, Kinky apontou um trecho em documento francês citando a referida lista e exigiu que o Comitê fizesse as devidas correções — assim, ele poderia apresentar o fato como prova de que o Comitê havia se inclinado com bondade, ajudado a China. A situação ficou clara: os europeus entenderam que, na visão daquele representante, qualquer problema ocorrido era, por definição, culpa deles, e não da China. O governo do Kuomintang, na China, estava no poder fazia apenas um ano. Sem posição consolidada, estava numa situação delicada.
Notícias das Américas chegavam aos jornaleiros de Nova York na madrugada — por volta da hora do almoço em Genebra. Ali, os jornais do dia anterior eram a única fonte de informação que os conferencistas tinham sobre o Ocidente. Sob a manchete "DECISÃO SOBRE VOZ DE PRISÃO NA FRONTEIRA AGUARDADA", a Montreal
Gazette de 22 de janeiro noticiou que agentes da alfândega e imigração dos EUA detiveram e prenderam um cidadão canadense a cerca de um metro dentro do território canadense. O indivíduo foi acusado de contrabandear gregos indocumentados para os Estados Unidos. Ele atravessou o batente da porta de uma loja situada exatamente na linha de fronteira antes de ser agarrado, algemado e arrastado para o lado americano.(
link) Na mesma página, a matéria "PRIMEIRO MINISTRO DO JAPÃO ANALISA POLÍTICA EXTERNA" traz uma entrevista séria com o Barão Tanaka sobre questões internacionais, com destaque para a presença japonesa na Manchúria.(
link) Na mesma folha, no Afeganistão, uma efígie de "Lawrence da Arábia" foi queimada, e em Genebra os representantes do Canadá na Liga das Nações receberam agradecimentos pela sua participação.
Na página 2, lê-se que CAI O NÚMERO DE DEPENDENTES QUÍMICOS NOS EUA— Relatório Apresentado à Liga das Nações Defende a Repressão em Países Estrangeiros para Cortar o Contrabando... e revela que, segundo estimativas, um em cada mil americanos seria "dependente químico". Na página 29, a expressão "FECHAMENTO IRREGULAR NA BOLSA DE NOVA YORK" — no jargão de Wall Street — significa uma queda acentuada, com um volume de 4.897.500 ações negociadas (sem um piu sequer de que, 27 páginas antes, um figurão japonês manifestara "forte apoio à ideia americana de limitar a fabricação de entorpecentes"). Por fim, "PRESSÃO SOBRE O MARCO ALEMÃO" — A moeda alemã sofreu uma leve desvalorização cambial hoje, atribuída às taxas de juros baixas na bolsa de Berlim. Se a situação persistir, muitos acham que poderia ocorrer uma retirada expressiva de capital estrangeiro de Berlim..." Mediante omissão astuta, essa notícia transmite a ideia de que a ameaça dos EUA e da Liga das Nações — de forçosamente impor limites e regulamentações que restringiriam a produção da indústria farmacêutica alemã — não teria absolutamente nenhum impacto econômico ou financeiro. Afinal, se tal fator figurasse como causa de crises, recessões, desemprego ou guerras, aquilo certamente faria parte de qualquer análise honesta, não é? Não. Quaisquer hipóteses contrárias foram descartadas com desdém, recorrendo-se pelo contrário a supostas lacunas em gráficos de equações diferenciais de taxas de juros, — algo que, mesmo se explicado em detalhes, só seria compreensível para uma pequena elite. Esse mesmo truque continua funcionando até hoje.

Jardinagem: Curitiba anda invadida de rosetas--praga no gramado que produz pequenos espinhos que doem no dedo se arrancar, até mesmo com luvas. Com cola instantânea preguei pequenos pedaços daquele limpador de panelas da 3M, ou lixa para metais, nas pontas das luvas emborrachadas. Uso um gancho de desossa para afrouxar a terra em torno das raízes e assim, com as luvas reforçadas, é fácil arrancar essa praga.
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Quer saber a causa do Crash de 1929 e da Depressão da década de 1930? Leia.