quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Décima-primeira reunião do ópio: Tolerâncias da intolerância 23JAN1929

 

A fronteira, outrora, protegia o México, o Canadá e a Europa contra a agressão dos EUA...  Isso mudou.

Genebra, na Suíça, viu-se, em janeiro de 1929, inundada por relatórios sobre a violência gerada por leis que criminalizam condutas sem vítimas, além de relatos fantasiosos sobre a importação e exportação de drogas — devidamente taxadas, licenciadas, autorizadas e legalizadas — provenientes de países cujos políticos manifestavam mais ou menos entusiasmo em enfiar a própria cabeça no laço do proibicionismo. O termo "discrepância" aparece dez vezes logo na primeira página da ata daquela reunião vespertina; após muita discussão acalorada e muita tinta gasta, chegou-se a uma "Santíssima Trindade" de diretrizes:

1. O Secretariado da Liga examinará todas as discrepâncias;
2. Todos os governos envolvidos devem ser repreendidos; e
3. A cada cinco anos, o Comitê deve verificar a precisão de um quadro estatístico internacional...
com um subitem (b) que conclui: "Nos relatórios estatísticos anuais — tanto os provisórios quanto os definitivos —, quaisquer dados dos quais surjam discrepâncias deverão ser assinalados com um asterisco." (*)

Na física, na química, na estatística e até mesmo na usinagem das pistolas de serviço da gendarmerie — utilizadas para cobrar as leis dos fervorosos defensores da repressão —, o termo "tolerância" refere-se à margem permitida para desvios em relação a padrões teóricos ou ideais; ou seja, discrepâncias. Uma consequência lógica de se marcar, com asteriscos, os relatórios sobre contrabando, remessas e apreensões — indicando a existência de discrepâncias — seria o enorme consumo de tinta que o Quarto Comitê da Liga (responsável pelo orçamento e pela contabilidade financeira) teria de justificar, caso essas pequenas tolerâncias exigissem asteriscos proporcionais aos absurdos inseridos nos relatórios nacionais. O dilema foi resolvido com a inclusão de uma subinstrução adicional no item (b), a saber: "Discrepâncias que não ultrapassarem as seguintes quantidades serão desconsideradas:

Ópio bruto    500 quilos
Morfina    100 quilos
Heroína    10 quilos
Cocaína    10 quilos."

Sob as regras do "clube dos cartéis" formuladas na época, meia tonelada de ópio acaba sendo tratada, de uma forma ou de outra, como um mero erro de arredondamento.

Para apaziguar mais um arroubo italiano, o presidente, um sérvio, recorreu ao Pacto da Liga das Nações, sugerindo que aquilo dava respaldo à diatribe de seu distinto colega. O Artigo 23 do Pacto — de autoria norte-americana — espelha parte do Artigo 23 do Tratado de Versalhes, conferindo à Liga a responsabilidade por aquela nobre "proibição" que, deixada sob a gestão de Haia, havia naufragado nas hostilidades balcânicas e mundiais. Ambos os documentos eram frequentemente invocados como base jurídica para o uso irrestrito da força e para a inclusão contínua de novas substâncias na lista de "drogas" a serem restringidas em escala global — e que se danem as consequências econômicas! Desde fevereiro de 1920, o Tratado de Versalhes, em sua totalidade e em todos os seus desdobramentos, também vinha sendo alvo de denúncias por parte de um só partido socialista alemão — uma agremiação tão inexpressiva que podia ser ignorada sem maiores preocupações... por enquanto. 

Alguns itens, autorizados para exportação em 1927 pela Sûreté francesa, foram apreendidos na China — país que, segundo documentos da Liga das Nações, não teria implementado o sistema de certificados de importação para entorpecentes. Essa omissão tornava tais remessas para a China legais, sob a ótica dos padrões europeus. Foi então que "King-Ky" — um chinês cujo nome aparece grafado de formas diferentes em diversos documentos da Liga — interveio, negando ter conhecimento dos fatos adicionais. King-Ky alegou que o governo chinês tinha adotado o sistema "em princípio"; se o Ministério do Interior não tomara providências, era porque a China estava "de mãos e pés atados por tratados desiguais", e as autoridades estrangeiras locais não respondiam às suas indagações. Segundo ele, tudo isso criava uma obrigação moral para os estrangeiros: o de alterar os fatos e corrigir o documento francês. Ao ser informado de que a lista fora elaborada pela Liga das Nações, e não pela França, Kinky apontou um trecho em documento francês citando a referida lista e exigiu que o Comitê fizesse as devidas correções — assim, ele poderia apresentar o fato como prova de que o Comitê havia se inclinado com bondade, ajudado a China. A situação ficou clara: os europeus entenderam que, na visão daquele representante, qualquer problema ocorrido era, por definição, culpa deles, e não da China. O governo do Kuomintang, na China, estava no poder fazia apenas um ano. Sem posição consolidada, estava numa situação delicada.

Notícias das Américas chegavam aos jornaleiros de Nova York na madrugada — por volta da hora do almoço em Genebra. Ali, os jornais do dia anterior eram a única fonte de informação que os conferencistas tinham sobre o Ocidente. Sob a manchete "DECISÃO SOBRE VOZ DE PRISÃO NA FRONTEIRA AGUARDADA", a Montreal Gazette de 22 de janeiro noticiou que agentes da alfândega e imigração dos EUA detiveram e prenderam um cidadão canadense a cerca de um metro dentro do território canadense. O indivíduo foi acusado de contrabandear gregos indocumentados para os Estados Unidos. Ele atravessou o batente da porta de uma loja situada exatamente na linha de fronteira antes de ser agarrado, algemado e arrastado para o lado americano.(link) Na mesma página, a matéria "PRIMEIRO MINISTRO DO JAPÃO ANALISA POLÍTICA EXTERNA" traz uma entrevista séria com o Barão Tanaka sobre questões internacionais, com destaque para a presença japonesa na Manchúria.(link) Na mesma folha, no Afeganistão, uma efígie de "Lawrence da Arábia" foi queimada, e em Genebra os representantes do Canadá na Liga das Nações receberam agradecimentos pela sua participação.

Na página 2, lê-se que CAI O NÚMERO DE DEPENDENTES QUÍMICOS NOS EUA— Relatório Apresentado à Liga das Nações Defende a Repressão em Países Estrangeiros para Cortar o Contrabando... e revela que, segundo estimativas, um em cada mil americanos seria "dependente químico". Na página 29, a expressão "FECHAMENTO IRREGULAR NA BOLSA DE NOVA YORK" — no jargão de Wall Street — significa uma queda acentuada, com um volume de 4.897.500 ações negociadas (sem um piu sequer de que, 27 páginas antes, um figurão japonês manifestara "forte apoio à ideia americana de limitar a fabricação de entorpecentes"). Por fim, "PRESSÃO SOBRE O MARCO ALEMÃO" — A moeda alemã sofreu uma leve desvalorização cambial hoje, atribuída às taxas de juros baixas na bolsa de Berlim. Se a situação persistir, muitos acham que poderia ocorrer uma retirada expressiva de capital estrangeiro de Berlim..." Mediante omissão astuta, essa notícia transmite a ideia de que a ameaça dos EUA e da Liga das Nações — de forçosamente impor limites e regulamentações que restringiriam a produção da indústria farmacêutica alemã — não teria absolutamente nenhum impacto econômico ou financeiro. Afinal, se tal fator figurasse como causa de crises, recessões, desemprego ou guerras, aquilo certamente faria parte de qualquer análise honesta, não é? Não. Quaisquer hipóteses contrárias foram descartadas com desdém, recorrendo-se pelo contrário a supostas lacunas em gráficos de equações diferenciais de taxas de juros, — algo que, mesmo se explicado em detalhes, só seria compreensível para uma pequena elite. Esse mesmo truque continua funcionando até hoje. 



Jardinagem: Curitiba anda invadida de rosetas--praga no gramado que produz pequenos espinhos que doem no dedo se arrancar, até mesmo com luvas. Com cola instantânea preguei pequenos pedaços daquele limpador de panelas da 3M, ou lixa para metais, nas pontas das luvas emborrachadas. Uso um gancho de desossa para afrouxar a terra em torno das raízes e assim, com as luvas reforçadas, é fácil arrancar essa praga.  



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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

1929, décima reunião de ópio da liga

 

Os membros do comitê estão examinando os relatórios anuais sobre drogas enviados à Liga das Nações, quase todos referentes a 1927.

Genebra, Suíça, 23 de janeiro de 1929: O representante suíço, Dr. Carrière, deu o tom da discussão ao assumir que os dados da Suíça referentes à morfina estavam incompletos; em resposta, o presidente da sessão mencionou uma data incorreta para a entrada em vigor da Convenção de Genebra sobre Drogas. O representante da França reconheceu a existência de erros nos números relativos às importações de heroína, justificando-os como estoques remanescentes de 1926. Também foram relatadas incorretamente as quantidades de drogas enviadas da Suíça para os territórios sob controle japonês em Kwantung, na China — territórios que o Japão herdara dos alemães como parte dos acertos de contas da Primeira Guerra Mundial. O representante japonês, contudo, assegurou ao seu colega que os números estavam corretos, desde que analisados ​​sob a perspectiva adequada. Na sequência da reunião anterior — na qual vieram à tona discrepâncias tão desencontradas que chegavam a ser cômicas —, esses debates levaram à discussão do item 302: como o Secretariado da Liga das Nações deveria reagir a dados obviamente incorretos apresentados nos relatórios recebidos? O mecanismo estabelecido em 1925, ao que tudo indicava, não estava funcionando.

O exaltado senador italiano aproveitou a deixa para tecer críticas e apoiou a sugestão de um colega para incluir notas de rodapé a título de interpretação — ressalvando, porém, que não pretendeu cobrar censura do Secretariado. Acrescentou, ainda, que seria necessário recorrer a estatísticas técnicas específicas, a fim de evitar que dados incorretos comprometessem a percepção da qualidade do trabalho da Liga; ao mesmo tempo, elogiei a abordagem adotada pelo "Conselho Central" — uma criação norte-americana — para essas considerações, apontando-a como um modelo a ser seguido. Intervindo em nome da Seção do Ópio, o professor Hall notou que os documentos contendo discrepâncias não eram de circulação pública; portanto, a possibilidade de uma repercussão negativa em uns trinta casos não constituía uma preocupação imediata, e os protocolos foram devidamente aplicados. O senador Cavazzoni, contudo, manifestou sua inquietação: seria preciso esperar até 1929 — seis anos após o início dos trabalhos do Comitê — para que houvesse um esclarecimento maior sobre as estatísticas! Quando o representante da Índia informou que o relatório da Itália havia chegado com vários meses de atraso, o senador reagiu com um mau humor birrento, indignado com a simples ideia de que o seu país pudesse ter alguma parcela de culpa nas discrepâncias que ele tanto criticava.

A bem da verdade, o ano de 1929 confirmava o que todos os que conheciam o comércio de produtos farmacêuticos anteviram em 1924! O representante dos Países Baixos, Van Wettum, elaborou uma análise dos problemas relacionados à coca e à cocaína — produtos pelos quais os Países Baixos haviam optado no século anterior, por considerá-los menos exploratórios e nocivos do que o ópio. Seu plano propunha uma redução de 10% na produção (para apaziguar os americanos mais radicais), mas previa a criação de um cartel ao estilo europeu e a supressão da concorrência da cocaína sintética — seguindo o mercantilismo à moda de Adam Smith. Os europeus que elaboraram propostas alternativas não acreditavam que a coerção fosse capaz de produzir estatísticas fidedignas. Outros europeus redigiram planos e minutas de tratados, mas nenhum destes atendia às exigências americanas.

Em 25 de maio de 1923, o bispo Brent declarou ao Comitê Consultivo sobre o Ópio da Liga das: "Nesta ou em qualquer outra questão relativa ao bem-estar humano, se permitirmos que a receita ou o lucro financeiro desempenhem qualquer papel — exceto o de humilde servidor da ciência, da moral e da religião —, isso se torna uma influência degradante, que corrompe a mente dos homens e perverte a sua moral. [...] O dinheiro é, de fato, a raiz de todo o mal. Isso vale tanto para os indivíduos quanto para os governos". Essa foi a sua maneira de preparar o terreno para a proposta americana de "curar" europeus e asiáticos — assim como a técnica de afogamento simulado (waterboarding) dos americanos "curou" os filipinos... Os europeus entenderam que fanáticos assumiram o poder nos Estados Unidos. Em 5 de fevereiro de 1923, o relatório da 4ª Sessão do Comitê Consultivo sobre o Ópio — que mencionava a limitação da produção — foi aprovado pelo Conselho da Liga. A 4ª Sessão tivera início em 4 de janeiro de 1923; enquanto isso, a hiperinflação alemã intensificou-se, antes de os delírios do bispo eliminarem qualquer dúvida sobre o dilema. Os alemães recordavam-se de que, desde a aprovação da lei antidrogas Jones-Miller, em 26 de maio de 1922, o Artigo 23 do Tratado de Versalhes vinha sendo instrumentalizado — da mesma forma que a Convenção de Haia fora transformada em arma após a promulgação da lei antidrogas de Harrison em 1914. A seguir, veio a Primeira Guerra Mundial.

Leitura e mídia interessantes: Opium to Java, de James Rush — obra que li há muito tempo. O Google agora a disponibiliza como um "Google Book" (link). Fiquei surpreso ao descobrir que os holandeses, no período colonial, passaram a ver a receita proveniente do ópio com desilusão, considerando-a uma "afronta a uma nação cristã"; por isso, optaram por substituir a cultura pelo cultivo de arbustos de coca, trazidos da América do Sul. A revista National Geographic abordou a produção de coca nas Índias Orientais Holandesas e o cultivo de ópio nos Bálcãs, no mesmo cenário em que as campanhas sino-americanas de proibição desencadeavam crises econômicas e políticas que culminaram na Primeira Guerra Mundial. Isso incluiu artigos escritos por Herbert Hoover. Contudo, os algoritmos de busca são programados para simular incompreensão e marginalizar pesquisas sobre o tema. Por fim, fiz a busca específica: "Alguma vez foi cultivada coca em Java?". O feitiço foi quebrado, revelando este vídeo no YouTube no qual não sei se a tradução automática funciona:



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Nona reunião de 1929 do grupo antidroga da Liga das Nações

 

Mussolini: aos meus compatriotas, empenhados em engrandecer a América.

  
A 9ª reunião sobre o ópio, realizada em 22 de setembro em Genebra, começou com análises tediosas de tabelas estatísticas referentes ao ópio bruto, extraídas de relatórios de 1927. Discrepâncias — como uma diferença de 7 toneladas entre os números das exportações de ópio da Índia para Hong Kong e as importações ali declaradas — apresentavam erro de 80%. Segundo um especialista, isso foi porque apenas 21 toneladas haviam passado despercebidas — um erro honesto. Outra investigação do gênero revelou que toda a morfina fabricada na Índia era proveniente de ópio confiscado e de resíduos da lavagem das cubas.

O relatório da Pérsia foi mais extravagante. Registravam 360 toneladas exportadas para a Grã-Bretanha em 1926 e 0,8 tonelada em 1927, ao passo que os registros britânicos apontavam que zero gramas havia sido importado nos casos — fato que deixou o senador italiano perplexo. O representante inglês explicou que a Grã-Bretanha e o Império Britânico eram entidades distintas e que Sarawak e os Estabelecimentos dos Estreitos (Straits Settlements), próximos a Singapura, haviam importado 146 toneladas, o que aproximou consideravelmente os dois conjuntos de números. O representante da Índia informou que as estatísticas persas apontavam grandes exportações para a Índia, os Países Baixos e a França, ano após ano; contudo, a Índia não havia importado absolutamente nada, e os demais números também não passavam de invenções. Outros dados — como os referentes ao Território arrendado de Kwantung, na China (tomado dos alemães e entregue ao Japão após a Primeira Guerra Mundial) — também se mostraram obscuros demais para serem considerados confiáveis. Da mesma forma, os números relativos ao "ópio medicinal" apresentavam divergências entre as diferentes versões. No caso dos sais de morfina comercializados entre a França e a Suíça, havia uma diferença de 2,3 toneladas; contudo, discrepâncias dessa ordem foram justificadas por questões como métodos de contabilidade e a distinção entre peso bruto e peso líquido, o que resultou em margens de diferença menores. Curiosamente, a França importava toda a sua codeína da Suíça e da Alemanha.

O senador italiano aí quis colocar o Japão em saia justa, mas foi rebatido, pois tudo aquilo já havia sido cuidadosamente explicado — com riqueza de detalhes — nos relatórios japoneses de 1924. De fato, foi em 24 de abril de 1924 — quinze anos e milhares de marchas da Ku Klux Klan após a conquista do campeonato de boxe por Jack Johnson — que o representante holandês, Van Wettum, explicou minuciosamente, que, no que tange à cocaína (por cuja "dependência" nunca havia internamento hospitalar), uma legislação impraticável logo suscitou setor de contrabando que, segundo ele, seria permanente, e que "os pesos envolvidos não se definiam de forma confiável". Esses relatórios fake de 1927–1929 confirmaram as previsões que ele havia feito cinco anos antes. Frustrado, o Comitê entrou em sessão fechada.

O próximo item repetia a mesma limitação da produção global que os americanos defendiam em 1924, desfilando agora em novo modelito, apelidado de "Plano Crane". O senador italiano, sem bater olho no conteúdo, declarou sua "calorosa e sincera aceitação do plano recebido do governo dos Estados Unidos". O representante japonês lembrava de que haviam recebido carta a esse respeito no ano anterior, só que o Sr. Crane escrevera posteriormente confessando que a ideia fora concebida por um certo Sr. Blanco, da Seção de Ópio de Genebra. Com isso o Sr. Sato puxou da manga cartas do governo holandês e do chefe da Liga das Nações nas quais que o próprio Crane assumia que a ideia não era sua. O senador italiano nem quis saber da autoria, pois se os EUA diziam que era deles, ele acreditava — e isso para ele encerrava o assunto. Outros achavam desonesto a imprensa chamar aquele plágio de "plano americano". O exaltado senador cobrou uma votação para incluir a proposta na pauta o quanto antes. Perdeu na votação, apesar do apoio do representante chinês Wang-King-Ky — cujo nome aparece grafado de formas diferentes em diversos documentos, mas cuja voz era tão estridente quanto a do senador Cavazzoni.

Leitura: O PAPA DE HITLER, a história secreta de Pio XII, por John Cornwell, Tradução de A.B. Pinheiro de Lemos. Você alguma vez tentou provar que o adversário estava errado e acabou mudando de ideia após muita pesquisa? Aconteceu comigo e aconteceu com o autor desse livro--um católico que quis defender o papado das caluniósas acusações dos críticos--e acabou mudando de posição. Quando menino fui obrigado a rezar pelo mesmo papa, cujo nome correto eu nem sabia. Tudo o que sabia sobre os nacionalsocialistas alemães aprendi nos gibis de guerra americanos, ou seja, nada. Foi uma surpresa descobrir o que esse livro revela sobre as negociações da concordata e desdobramentos na interface do Vaticano e o 3º Reich naqueles anos tensos. Foi na versão livro falado que soube dessa estória, e na largada a tradução parecia que não batia com o prolegômeno narrado pela voz singular de Michael Page, que narrou pelo menos uma das obras de George Orwell. Fui ver e realmente o prefácio em português é o que me lembrei, mas o prólogo é um tanto diferente  desta amostra que achei na Amazon.(link) Escolha audiobook e clique em Preview para ouvir o trecho. Enfim, comprei do sebo Reviravolta Livros e fiquei contentíssimo com esta versão. 


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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

1929--8ª reunião da Comissão do ópio da Liga das Nações

 

Essa droga nada irritante à garganta não constava da pauta oficial senão como cultura subsidiada pelos governos para substituir o plantio da dormideira ou da coca. As jovens apontadas como garotas-propaganda, que fumavam o produto para manter a silhueta esbelta, logo morreram de hipertensão pulmonar, cardiopatia reumática ou problemas nas amígdalas (link). Não perca os musicais... (link)

Terça-feira, 22 de janeiro de 1929, Genebra, Suíça — O representante suíço Carrière apontou que a produção de morfina na Suíça havia caído 53% em 1927 em relação a 1926, e da heroína, 6% no mesmo período. Os números suíços referentes à cocaína eram "muito baixos e provavelmente diminuiriam ainda mais". O fiscal dos EUA junto ao Conselho Permanente irritou-se com o relatório dos Países Baixos — que, assim como o relatório suíço, começou sendo sigiloso—, mas foi assegurado de que o motivo da sua apresentação resumida fora o atraso, e não o sigilo. Os Países Baixos não forneceram praticamente nenhuma informação, e os fiscais do Conselho Central Permanente viram-se reduzidos a perguntar por que apenas 17 quilos de morfina haviam sido produzidos — sem, contudo, obter qualquer explicação.

Chegou a vez de Chosen — hoje chamada de Coreia — cair sob o escrutínio. Naturalmente, o Sr. Sato, do Japão, respondeu em nome desse território sob tutela de seu Estado político e logo descartou as indagações sobre a Taisho Drug Manufacturing Co., explicando que a empresa fora obrigada a suspender as operações e estaria respondendo à Suprema Corte. Isso encerrou qualquer possibilidade de discutir detalhes específicos; assim, o porta-voz e tutor da Coreia mudou habilmente de assunto para um plano admirável de monopólio estatal da morfina, nos moldes daqueles praticados por nações europeias com suas populações coloniais. Em toda a Coreia, segundo informaram os especialistas imparciais, havia apenas 5.000 dependentes — todos, ou quase todos, viciados em morfina. Esses "morfinômanos" recebiam tratamento em regime de rodízio, e a expectativa era de que tudo isso ficaria extinto em um prazo de dez anos. Sua retórica era tão fluida que ninguém contestou a impressão transmitida de que a coca e a cocaína estariam totalmente desconhecidas em uma ilha nada distante de Java e Sumatra — onde o ópio havia sido erradicado e a produção de coca, por quase duas décadas, deixara no chinelo a da América do Sul.

O italiano nervosinho não dectou erros na narrativa de Sato, mas continuava duvidando de que o racionamento de drogas por meio de um monopólio fosse coisa positiva. Ele levantou o habitual fantasma da vulnerabilidade a indivíduos que "se enriqueciam com esse mal que afligia a humanidade" mas logo maneirou, dizendo estar confiante de que essa "parcela vergonhosa da humanidade" seria mantida à margem das operações. A discussão abordou os métodos de cura japoneses. Durando de 6 a 22 dias, pareciam mais céleres do que o tratamento inglês para dependentes de opiáceos. Após o Sato expor a produção de morfina prevista para a Coreia — considerada insignificante —, um delegado suíço, que insistia (na qualidade de médico) que a codeína não causava dependência, tentou extrair detalhes clínicos mencionando que a cocaína, utilizada como cura para o vício em morfina, apenas transformara morfinômanos em "dependentes" de cocaína — figura essa que os japoneses sabiam perfeitamente não existia. Logo perdeu toda a credibilidade ao afirmar que o alcoolismo e a dependência eram fenômenos psicológicos, defendendo tanto a redução gradual quanto a interrupção abrupta como "o único tratamento" que apresentara "resultados positivos". O delegado de Portugal, um "ex-professor de medicina", manifestou sua concordância, e os participantes, ao que tudo indica, conseguiram manter a cara limpa.

Em seguida, examinou-se a situação da Grécia, fronteiriça com a Turquia, a Bulgária e a Sérvia — todas produtoras de ópio. Os gregos detinham um lucrativo monopólio desta seiva e compartilhavam uma de suas "zonas francas" com a Sérvia. Quando se constatou que os números de importação da Grécia e de exportação da Sérvia coincidiam perfeitamente, ficou claro que não adiantava tentar pegá-los em contradições; o relatório sobre a Pérsia foi prontamente aberto.

A Pérsia, exportadora de ópio, boicotou o tabaco em 1907, ano em que os EUA se apressavam em aprovar leis estaduais e federais para restringir todas as demais drogas e bebidas. Incapaz de pagar seus gendarmes, o governo persa elaborou uma constituição e contratou um banqueiro americano para desenvolver ali um sistema fiscal e bancário — incluindo tarifas sobre entorpecentes — e, por isso mesmo, foi invadida pela Rússia cristã em 1911, ano da guerra civil chinesa. Pressionada, a Pérsia assinou a Convenção do Ópio de Haia "com ressalvas" em 1912. A ocupação britânica no pós-guerra apenas intensificou o desprezo persa pelos intrometidos euro-americanos e a admiração pelo Japão. A Pérsia, a Turquia e a Rússia Soviética ainda resistiam à adesão à Liga das Nações; contudo, a Pérsia figurava como membro do Conselho. Tanto os fiscais do Conselho Permanente quanto os delegados europeus ligados ao refino de drogas leram, com pavor evidente, sobre os planos da Pérsia de instalar sua própria fábrica de morfina. As fábricas existentes já refinavam muito mais morfina do que os proibicionistas americanos consideravam necessário para as necessidades globais "legítimas". O representante do Japão desviou o foco da discussão ao mencionar planos dos turcomenos de cultivar papoulas a leste do Mar Cáspio, enquanto o representante da Grã-Bretanha farfalhava propostas e memorandos antigos e acrescentava críticas indignadas--mas acabou sendo acalmado pela opinião da Secretária de que tais planos dificilmente sairiam do papel.

A reunião seguinte teria início na tarde de terça-feira, 22 de janeiro.

Leitura: Atas das duas Convenções do Ópio de Genebra (e de tudo o mais, exceto cigarros). Para minha surpresa, o projeto se desdobrou em 38 reuniões primárias – três vezes isso em reuniões auxiliares – e durou quase 70 dias, cobrindo 500 páginas em letras miúdas e tamanho ofício. Os faniquitos de alguns dos conferencistas mais histéricos tornaram pitorescos os procedimentos, e os resultados -- inclusive o linchamento fanático do cânhamo de maconha -- repercutiram nessas reuniões de 1929 que estamos revisitando. Estas reuniões de 1929 revelarão os seus próprios chiliques e e faniquitos com o correr do tempo, isso eu garanto. Encontrei estas informações em uma universidade na Índia. Os registros da Liga na Genebra são mais embaçados e a sua inclusão da versão francesa aumenta o peso de cada arquivo. 

Acabei comprando uma selfie light da Evershop na Amazon e retomei a fotografia dos últimos seis meses do Peking Daily News de 1912. O equipamento quase exige o uso de uma alavanca para encaixar o celular na presilha, que é muito apertada, e tive que usar uma lupa de relojoeiro para ler as instruções do acionador Bluetooth, mas funciona sem a vibração do meu dedo no celular suspenso. Em uma foto de teste, a primeira coisa que notei foi um anúncio de cigarros egípcios de julho de 1912. Sua importância ficará mais clara quando examinarmos os registros da Convenção de Genebra de 1924-25.

Alguns fatos interessantes sobre a fabricação industrializada dos cigarros: (link)

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domingo, 6 de setembro de 2026

Safras da dormideira nos Balcãs

 

Violentas revoltas na China, Mussolini caçando encrenca nos países que exportavam o ópio em 1927... (link) Parece boa coisa? 

21 de janeiro de 1929: Na 7ª reunião do Comitê Consultivo sobre o Ópio da Liga das Nações, em Genebra, as informações mais relevantes vieram da Sérvia. Renomeado como Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos e cena do atentado ao Arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914. Esse evento transformou as Guerras do Ópio nos Bálcãs — que já estavam em curso — em uma Primeira Guerra Mundial em toda a sua plenitude, protagonizando uma das sequências de causalidade mais distorcidas por omissões na história.

Em nome do Reino, o Sr. Militchevitch pediu desculpas pelo atraso na entrega do relatório de estatísticas sobre drogas de 1927 e — citando Danton com ironia — observou que seu artigo na Economic Review, sobre como as medidas de repressão da Liga haviam aumentado os lucros dos produtores de ópio dos Balcãs, custara ao Reino sua vaga no Conselho Central Permanente do Ópio--órgão dominado pelos EUA. As atividades da Liga e a inviabilidade das plantações de tabaco haviam impulsionado significativamente as vendas regionais de ópio; a colheita de papoula da Sérvia em 1928 fora excepcionalmente farta — algo em torno de 200 toneladas de ópio, enquanto os baixos preços do tabaco eliminaram essa planta como cultura alternativa. Ainda restavam 80 toneladas de ópio como superávit estocado na Sérvia. No entanto, a vantajosa divulgação promovida pela Liga havia colocado os produtores locais em contato com importadores estrangeiros, e a maior parte da droga exportada em 1928 fora destinada à Alemanha, Suíça, Inglaterra e aos EUA — um novo cliente! Ainda assim, Militchevitch gabava-se de que a produção de ópio no sul da Sérvia representava apenas metade do volume registrado antes da Guerra.

Nem houve surpresa quanto a isso. Após o boicote, a China havia revertido, em 1906, sua política de cultivo generalizado de papoulas, politica que visava evitar as importações que enfraqueciam a moeda no regime de proibição absoluta. Esse desmatamento tranquilizou os políticos americanos, assegurando-lhes que não estavam só sendo manipulados ​​para enriquecer o monopólio interno de ópio da China. Resultou a Revolução de 1911, que derrubou a dinastia Qing. Essa revolta substituiu o Império por caudilhos rivais de nacionalistas e comunistas. Relatos do Peking Daily News descreveram como os portos chineses excluíram as cargas de ópio estrangeiro a partir de 1912, cortando efetivamente a renda dos fazendeiros de papoula dos Bálcãs. O pânico econômico resultante agravou as tensões tribais entre cristãos e muçulmanos, e historiadores financiados por Carnegie num instante rotularam a agitação resultante como "Guerras dos Bálcãs" — isso em vez de reconhecer os primeiros choques da Terceira Guerra do Ópio. Por que, afinal, os políticos republicanos dos EUA assumiriam responsabilidade por empurrar o mundo para nova guerra do ópio? Ao ceder às exigências do boicote chinês de 1905, os republicanos queriam restabelecer as exportações para a China a fim de não perder o voto dos agricultores. Esperava-se que as exportações de grãos e algodão mantivessem os preços dos cereais suficientemente altos para apaziguar os agricultores, evitando assim nova vitória presidencial democrata — como a de 1892, impulsionada por pautas contra o repressionismo carola. Como poderiam os republicanos, defensores da repressão, saber que proibir a produção e o comércio leva a pânicos, recessões, desemprego, colapsos de mercado e guerra?

Assim, catorze anos depois, na Genebra do pós-guerra, constatou-se que a Sérvia — exportadora do ópio mais forte do mundo — havia lucrado enormemente graças à publicidade gerada pela Liga. O reino, que passara por sucessivas mudanças de nome e se livrara do domínio austríaco e otomano, detinha agora um estoque de 80 mil quilos do ópio mais caro do planeta, contendo 14% de morfina. Um belo negócio, para quem consegue. Os negociadores sérvios conseguiram emplacar um representante próprio no Conselho Central, conforme registrado na reunião do Comitê Consultivo sobre o Ópio realizada em 18 de fevereiro de 1925. Os fabricantes americanos de cigarros teriam de buscar alhures fornecedores de tabaco barato e subsidiado.

Leitura: Nova tradução da Ayn Rand: Nós que Vivemos (link). Tenho esse em espanhol bem traduzido. Inclusive um dos trechos da edição original sobrevive num comentário da protagonista. Por remeter muito ao Friedrich Nietzsche (que apelidava de objetivistas muitos dos seus leitores) o parágrafo foi substituído por outro menos contundente. Nem sei qual das versões do trecho polêmico sobreviveu na versão brasileira, mas o livro é bom. Por coincidência acabo de ler POLOSTAN, romance histórico de espionagem atômica após a Primeira Grande Guerra. O problema é que esse autor escreve num inglês líquido de tamanha fluência que dá dó pensar no coitado que se meterá a traduzir aquilo. Por outro lado, essa obra da Ayn data da década de 1930, antes mesmo da Segunda Guerra. Demorou mas veio.  
Tratado de Versalhes (link) só que em inglês. Até hoje só achei uns trechos-imagem em alfacinha lisboeta que nem para converter não dá. Chamo atenção ao artigo 23 que exculpa os americanos de juntamente com os chineses terem causado os problemas nos Bálcãs com atrocidades a civis. Este artigo--repetido na carta da Liga das Nações sob o mesmo nº--eu aponto como a causa subjacente da Segunda Guerra mundial. 


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 Quer saber a causa do Crash de 1929 e da Depressão da década de 1930? Leia.

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